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Projetos

Encontro em Antonina fortalece trilhas de longo curso e turismo sustentável em Unidades de Conservação

Realizado pelo ICMBio, com investimento do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, evento reuniu gestores, especialistas e representantes públicos para discutir planejamento, manejo, governança e integração de trilhas em áreas protegidas

Gestores de Unidades de Conservação, especialistas em uso público, representantes de órgãos ambientais, do poder público, da academia, da sociedade civil e de instituições ligadas ao turismo estiveram reunidos em Antonina (PR) para discutir o fortalecimento de trilhas de longo curso e do turismo sustentável em áreas protegidas. O encontro, realizado nos dias 11 e 12 de maio, foi promovido pela equipe do Núcleo de Gestão Integrada Antonina-Guaraqueçaba do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com investimento do Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP).

O evento teve o objetivo de integrar trilhas situadas no território da Grande Reserva da Mata Atlântica, abrangendo Unidades de Conservação (UCs) do litoral do Paraná, São Paulo e Santa Catarina, com potencial de gerar benefícios socioeconômicos para as comunidades locais. Na abertura estiveram representantes do ICMBio, da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso (RedeTrilhas), do Instituto Água e Terra (IAT), da Secretaria de Estado do Turismo, da Fundação Florestal e da Prefeitura de Antonina, além do deputado estadual Goura Nataraj.

Chefe do NGI Antonina-Guaraqueçaba, Camile Lugarini destacou que a proposta inicial partiu da valorização da Travessia do Superagui, que em dezembro de 2025 inaugurou a Trilha do Ararapira, percurso estruturado com investimento do Biodiversidade Litoral do Paraná. “Essa experiência passou a fazer parte de uma agenda mais ampla de planejamento, troca de experiências e construção coletiva entre gestores e instituições. A expectativa é que o encontro resulte em um produto concreto para orientar novas etapas de estruturação das trilhas, com possibilidade de continuidade no âmbito do BLP”, disse Camile.

A programação do primeiro dia foi dedicada a debates sobre conectividade, sinalização, marco legal, infraestrutura de sensibilização e proteção, planejamento e manejo de trilhas sustentáveis. A coordenadora de Estruturação e Qualificação da Visitação (COEST/CGEUP) do ICMBio, Sônia Kinker, situou o evento em um momento de amadurecimento da agenda de trilhas no país. “A gente batalhou muito para que a agenda de trilhas deixasse de ser vista como acessória para ser uma agenda estruturante do uso público nas Unidades de Conservação e fora delas também. Esse evento coroa esse momento de amadurecimento.”

O deputado estadual Goura Nataraj defendeu a importância de transformar o turismo de natureza em políticas públicas com marcos legais capazes de dar sustentação às ações nos territórios. “A gente também deve tratar o turismo de natureza na perspectiva do turismo de base comunitária, especialmente no litoral do Paraná, em que estamos falando de comunidades tradicionais, comunidades quilombolas, comunidades indígenas e comunidades que representam a cultura caiçara”, defendeu o parlamentar.

Além das discussões técnicas, o evento também valorizou produtos da sociobiodiversidade local. Os participantes receberam kits com produtos de Antonina e Morretes ligados a cadeias produtivas locais, especialmente à da juçara. A iniciativa busca divulgar esses produtos e estimular que comerciantes, restaurantes e pousadas incorporem itens da sociobiodiversidade em sua oferta ao público.

Segundo dia aprofundou o planejamento integrado das trilhas 

A programação de terça-feira, 12 de maio, começou com a participação de Daniela Leite, gerente do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná. Ela apresentou a estrutura de governança e explicou como os recursos vêm sendo aplicados para fortalecer a conservação no litoral paranaense. Criado em 2021, o BLP prevê mais de R$ 110 milhões em investimentos até 2031, com atuação organizada em linhas temáticas que incluem estruturação e consolidação de Unidades de Conservação, uso sustentável, gestão socioambiental, manejo e conservação, uso público e negócios.

A Trilha do Ararapira, no Parque Nacional do Superagui, recebeu cerca de R$ 2 milhões do Programa para se tornar a primeira trilha bimodal estruturada e aberta à visitação pública permanente na unidade, com sinalização no padrão da RedeTrilhas, pontes suspensas, passarela e pontilhões. O percurso integra a Travessia do Superagui, que soma aproximadamente 40 quilômetros e conecta as comunidades caiçaras de Barra do Ararapira, Ararapira e Barra do Superagui, permitindo a visitação por caminhantes e ciclistas.

Ao longo da manhã, os participantes também conheceram experiências e projetos ligados à Grande Reserva da Mata Atlântica, ao Caminho do Peabiru, à Rota Caiçara e à Guaviva. Camila Domit, coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento e Estudos Ambientais (Lageamb) da UFPR, apresentou a proposta de uma Cátedra Unesco no litoral paranaense, com foco no fortalecimento de redes, iniciativas já existentes e espaços de diálogo.

A proposta da Cátedra parte da compreensão de que a conservação depende não apenas de dados técnicos, mas também da escuta de diferentes formas de conhecimento, especialmente das comunidades que mantêm relação direta com os recursos naturais. “A gente quer fortalecer nossa capacidade de olhar para esse território de uma maneira integrada, sem um único prisma, a partir de múltiplos olhares”, destacou a pesquisadora.

Agenda para os próximos anos

No período da tarde, os participantes se dividiram em grupos de trabalho para organizar os encaminhamentos do encontro. A atividade foi conduzida por Ricardo Roitburd, guia de turismo e professor, e teve como horizonte a construção de uma agenda para os próximos dois anos, considerando o avanço das trilhas de longo curso no litoral do Paraná e sua conexão com territórios de São Paulo e Santa Catarina.

As discussões foram organizadas em sete frentes: governança e comprometimento dos atores; mapeamento para planejamento; formalização das trilhas de longo curso; sinalização e padronização; comunicação, sensibilização e pertencimento; processos formativos e intercâmbios; e qualificação das redes empreendedoras. Os encaminhamentos construídos pelos grupos incluem a realização de um mapeamento das trilhas e iniciativas já existentes nos três estados, a definição de trajetos prioritários para conexão, a criação de instâncias permanentes de governança e a participação das comunidades envolvidas.

Programação seguiu com trilha, oficina e imersão na cultura caiçara

A programação seguiu até 16 de maio, com atividades de campo no Parque Nacional do Superagui. Os participantes deixam Antonina em direção à Barra do Ararapira, em Guaraqueçaba. Parte do grupo fez a Trilha do Ararapira em caminhada, enquanto a outra seguiu de bicicleta até a Barra do Superagui, pela Praia Deserta. Nos dias seguintes, a agenda incluiu oficinas de sinalização de trilhas, bate-papo e uma programação cultural com fandango caiçara.

Mário Sérgio Celski de Oliveira, analista ambiental do ICMBio no Parque Nacional da Serra do Itajaí, em Santa Catarina, destacou que a programação permitiu aos gestores vivenciar o turismo de natureza pela perspectiva dos visitantes. “A gente teve a oportunidade muito interessante de vivenciar uma trilha de longo curso como um usuário. Começamos vivenciando aqui, em Antonina, onde nos hospedar na cidade, como acessar a alimentação, como se locomover, e depois fomos até a Trilha do Ararapira para percorrê-la e experimentar tudo o que o usuário vai vivenciar”, afirmou.

Sobre o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná

Criado em 2021, o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná promove a conservação, a pesquisa e o uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense. Financiado pelo Termo de Acordo Judicial (TAJ) firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, o Programa transformou um passivo ambiental em investimento histórico em conservação: serão mais de R$ 110 milhões destinados a iniciativas estratégicas ao longo de dez anos. 

A governança do programa é compartilhada entre organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), supervisionados pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Paraná. A gestão financeira e operacional do Programa é realizada pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Para saber mais, acesse www.biodiversidadelitoralpr.com.br.