
RPPNs do litoral do Paraná passam a ter planos de manejo e reunir dados inéditos sobre biodiversidade
Três reservas privadas avançam na proteção da Mata Atlântica com apoio do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná
Três Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) localizadas no litoral do Paraná concluíram uma importante etapa para sua consolidação como áreas protegidas. Com apoio técnico do Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais e financiamento do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, as RPPNs Graciosa (Morretes), Encantadas (Antonina) e Encontro das Águas (Paranaguá) finalizaram seus planos de manejo e instalaram sinalização demarcatória, medidas que aumentam a proteção dos territórios e fortalecem o papel dessas áreas privadas na conservação da Mata Atlântica.
A iniciativa integrou a primeira fase do projeto Reservas Particulares do Lagamar Paranaense, realizado entre 2023 e 2025 e voltado ao fortalecimento de RPPNs, contemplando desde estudos ecológicos até o mapeamento e sinalização dos limites das reservas. Segundo Anne Zugman, coordenadora do projeto no Mater Natura e também proprietária da RPPN Encontro das Águas, os maiores avanços da etapa foram a elaboração dos planos de manejo e a instalação da sinalização nos limites das áreas.
“A elaboração dos planos de manejo estabelece diretrizes claras para o uso, a proteção, monitoramento das áreas, orientando ações contínuas de manejo. Já a instalação da sinalização demarcatória nos limites das RPPNs fortalece a proteção física e jurídica do território, contribuindo para inibir pressões como caça, pesca, extração vegetal e usos indevidos . Conjuntamente, essas ações reduzem ameaças diretas aos remanescentes florestais, aumentam a segurança ecológica das áreas e reforçam o papel das RPPNs como instrumentos estratégicos para a conservação de longo prazo da Mata Atlântica”, explicou.
No caso da RPPN Encontro das Águas, que tem como objetivo principal a conservação e o monitoramento da biodiversidade, o plano de manejo já foi aprovado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). “Este é um passo fundamental para a gestão da RPPN”, comemorou Anne.

Em Morretes, floresta protegida pelas nascentes
A RPPN Graciosa, em Morretes, foi criada por iniciativa da engenheira agrícola Mirian Lovera Silva e de seu marido. A reserva teve origem no desejo de proteger a floresta adquirida pela família. “Achei isso muito legal, porque os nossos herdeiros vão herdar essa reserva. Se a gente vender essa área, obrigatoriamente tem que ser preservada”, contou Mirian, lembrando que transformou a área em RPPN após ser aprovada em um edital.

Com o apoio do Mater Natura, a RPPN Graciosa passou a contar com inventário de biodiversidade, enriquecimento florestal com cerca de 2 mil mudas, dispersão de sementes de juçara e, mais recentemente, a finalização e aprovação do plano de manejo junto ao ICMBio. “Foi uma revisão importante. Eu escrevi o plano de manejo com a secretária de meio ambiente do município, mas depois precisei de apoio técnico do Mater Natura para adequar a nova versão exigida. Fiquei muito feliz com o resultado”, detalhou.
Além da biodiversidade, a RPPN Graciosa também é estratégica por preservar nascentes. “Ela oferece segurança hídrica não só para as nossas propriedades, mas também para os vizinhos. Protege dois cursos d’água que estão inteiramente dentro da área. É dessa água que bebemos e trabalhamos”, afirmou Mirian.
Encantadas: floresta intacta se torna projeto de vida
Em Antonina, a RPPN Encantadas também teve avanços. Herança da família de Janaína Gomes, educadora física que vive em Curitiba, a área permaneceu intocada por mais de 40 anos. “Durante a pandemia, comecei a olhar para essa responsabilidade. Eu não sou da área ambiental, mas percebi que podia fazer mais pela reserva”, contou.



Com apoio do Mater Natura, a Encantadas teve o plano de manejo elaborado com participação ativa da proprietária e da equipe técnica. “Tivemos um trabalho de escuta muito importante sobre os objetivos da área. Eu imagino a Encantadas como um espaço de conexão entre ser humano, natureza e animal”, explicou. O plano de manejo já foi protocolado e agora aguarda aprovação por parte do Instituto Água e Terra (IAT).
A reserva também recebeu ações de sinalização. “A frente da propriedade tem uma estrada de uso comum, então essa sinalização era essencial”, disse Janaína. O plano prevê ainda trilhas para atividades científicas, educativas e turísticas, incluindo observação de aves. Segundo ela, mais de 150 espécies já foram registradas na área por observadores especializados.
Projeto amplia conectividade no Lagamar
A coordenadora Anne Zugman destaca que essas ações ajudam a consolidar um mosaico de áreas protegidas no Lagamar, conectando RPPNs a grandes Unidades de Conservação públicas. “O investimento na criação e consolidação de RPPNs neste território fortalece a proteção de ecossistemas frágeis, espécies ameaçada de extinção e serviços ecossistêmicos fundamentais, fortalece a promoção de corredor ecológicos e conectividade da paisagem, integrando as RPPNs no mosaico de áreas protegidas do lagamar no entorno de grandes Unidades de Conservação. Também incentiva a iniciativa privada a participar da conservação e gestão do patrimônio natural”, pontua.
Além da importância ecológica, as reservas privadas também geram benefícios para os municípios, ao contribuírem com a arrecadação do ICMS Ecológico. “Eu percebo que a prefeitura entende a importância do incentivo às RPPNs, já que com elas o município pode aumentar sua arrecadação”, afirmou Mirian.
Mulheres que conservam
Além do apoio técnico, Janaina destacou como foi valioso fazer parte de um projeto que reuniu três mulheres proprietárias de RPPNs no litoral do Paraná. A convivência nas reuniões, segundo ela, transformadora. “Se não fosse por elas, talvez eu não teria feito nada. Tudo eu aprendi com elas. Porque uma mora na reserva, a outra é bióloga. E eu sou educadora e não moro lá”, contou. Para Janaina, essa composição feminina deu ao projeto um caráter diferente, marcado por vínculos afetivos com as áreas protegidas. “A gente tem um senso estético e um envolvimento emocional com os problemas da RPPN que é diferente dos homens que gerenciam. No meu caso, a reserva é do meu pai. A da Anne também era da família dela. A da Miriam, ela vive lá com a família. É um envolvimento que vai além do profissional”, afirmou.