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Projetos

Curso apoiado pelo BLP aposta na comunicação como ferramenta para conservar a biodiversidade

Formação reuniu gestores, pesquisadores e comunicadores para transformar conhecimento científico em narrativas capazes de aproximar a sociedade da conservação ambiental e estimular mudanças de comportamento

A conservação da biodiversidade depende de pesquisa científica, gestão, financiamento e políticas públicas. Mas também exige que esse conhecimento circule para além dos espaços técnicos, chegue à sociedade de forma clara e ajude a transformar informação em reconhecimento, engajamento e mudança de comportamento. Foi a partir dessa premissa que o Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar, com apoio do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná, promoveu uma formação voltada à comunicação para conservação. 

O curso reuniu 14 participantes, entre gestores de áreas protegidas, biólogos de campo e comunicadores, representando seis organizações e instituições ligadas à conservação da biodiversidade. Segundo a jornalista Laila Rebecca, da equipe do Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar e coordenadora do curso, a diversidade do grupo foi um dos pontos centrais da formação. “Um ponto muito importante foi justamente a diversidade do grupo: reunimos pessoas que estão no campo, na gestão e na comunicação, o que permitiu trabalhar a conservação a partir de diferentes olhares, experiências e desafios reais”.

Ao longo da formação, os participantes trabalharam temas como comunicação institucional, assessoria de imprensa, redes sociais, métricas, editais, ferramentas criativas e produção de conteúdo. A proposta foi tratar a comunicação não apenas como divulgação de ações já realizadas, mas como parte da estratégia necessária para ampliar o alcance dos projetos e fortalecer a relação entre conservação e sociedade.

Comunicar para aproximar

Para Laila, a formação nasceu da percepção de que bons projetos ambientais também precisam ser compreendidos pelo público para gerar apoio e mobilização. “Criamos essa formação porque entendemos que a conservação da biodiversidade não depende apenas de bons dados, bons projetos e boas equipes técnicas. Ela também depende da capacidade de comunicar bem: de tornar visível o que está sendo feito, de aproximar a sociedade dos temas ambientais e de transformar conhecimento em engajamento, apoio e ação”.

Um dos desafios, segundo ela, é fazer com que informações técnicas produzidas por projetos de conservação cheguem a diferentes públicos em uma linguagem acessível, sem perder rigor. Em um cenário de disputa intensa pela atenção das pessoas, especialmente nas redes sociais, temas como biodiversidade, áreas protegidas e pesquisa científica podem parecer distantes do cotidiano da população.

“Entre os principais desafios estão comunicar assuntos complexos sem perder rigor técnico, construir narrativas mais próximas e acessíveis, mostrar a relevância da conservação para a vida das pessoas e criar estratégias de comunicação que não sejam apenas informativas, mas também mobilizadoras”, afirma Laila

Da informação técnica à mudança de comportamento

A tradução do conhecimento científico para públicos mais amplos foi um dos eixos da formação. A proposta, segundo Laila, não é simplificar a ciência de forma superficial, mas construir pontes entre os dados produzidos por pesquisadores e equipes de campo e as pessoas que podem apoiar, tomar decisões ou mudar comportamentos em favor da conservação. “Porque aquilo que não é compreendido dificilmente é valorizado. E aquilo que não é valorizado dificilmente é protegido”.

Para ela, a comunicação tem papel estratégico justamente por permitir que relatórios, dados de campo e pesquisas sejam transformados em narrativas capazes de gerar vínculo com o território e com as espécies protegidas. “A ciência produz conhecimento fundamental para orientar a conservação, mas esse conhecimento precisa chegar às pessoas de forma clara, interessante e conectada com a realidade delas. Traduzir a ciência não significa simplificar de maneira superficial ou perder precisão. Significa construir pontes entre o conhecimento técnico e os públicos que podem se engajar, apoiar, tomar decisões ou mudar comportamentos”.

Campo como laboratório narrativo

Além dos conteúdos teóricos, a formação incluiu atividades práticas em campo. A intenção foi aproximar os participantes de situações reais de comunicação em conservação, nas quais é preciso observar o território, identificar mensagens relevantes, reconhecer públicos estratégicos e escolher formatos adequados para cada objetivo. “A parte prática foi pensada para aproximar os participantes de situações reais de comunicação em conservação. Não queríamos que fosse uma formação apenas teórica”.

Durante a atividade, os grupos desenvolveram minicampanhas com definição de objetivo, público, mensagem central, formatos e canais possíveis. De acordo com Laila, os exercícios funcionaram como protótipos de comunicação e poderão inspirar ações futuras das instituições participantes. “As atividades de campo funcionaram como um laboratório narrativo. A partir da observação, da escuta e da troca entre os participantes, cada grupo desenvolveu uma minicampanha com objetivo, público, mensagem central e possibilidades de formatos e canais”.

As propostas criadas durante o curso não foram pensadas como produtos fechados, mas como experiências aplicáveis às realidades das organizações. Algumas poderão ser adaptadas e divulgadas futuramente. “A ideia é que elas possam inspirar futuras ações das instituições participantes e, quando houver alinhamento técnico, institucional e autorização para uso dos materiais, algumas dessas propostas poderão ser adaptadas e divulgadas pelos canais dos projetos e parceiros envolvidos”.

Integração entre áreas

A expectativa é que a formação ajude os participantes a comunicar melhor seus projetos, territórios e causas, mas também contribua para aproximar áreas que nem sempre trabalham de forma integrada dentro das instituições. Para Laila, a conservação ganha força quando pesquisadores, gestores, equipes de campo e comunicadores atuam juntos.

“Esperamos que os participantes saiam da formação com mais segurança para comunicar seus projetos, seus territórios e suas causas. A principal mudança que buscamos é fortalecer uma visão mais estratégica da comunicação: entender quem é o público, qual mensagem precisa ser transmitida, quais formatos fazem sentido e como transformar informação técnica em conteúdo relevante para a sociedade e, especialmente, que a comunicação seja voltada para orientar mudança de comportamento em prol da conservação”.

No médio prazo, o projeto espera que as instituições participantes consigam ampliar a visibilidade de seus resultados, fortalecer redes de colaboração e tornar suas ações mais compreendidas pela sociedade. “Também esperamos que essa experiência ajude a aproximar ainda mais as áreas técnicas e de comunicação dentro das instituições. Quando pesquisadores, gestores, equipes de campo e comunicadores trabalham juntos, a conservação ganha força e alcance”.

Para Laila, investir em comunicação significa também fortalecer a sustentabilidade das ações de conservação, especialmente porque projetos ambientais dependem da mobilização de parceiros, da compreensão pública sobre sua importância e da conexão entre ciência e território. “Um aspecto importante é que iniciativas como essa ajudam a fortalecer capacidades que muitas vezes ficam em segundo plano nos projetos de conservação. Investir em comunicação é investir também na sustentabilidade das ações, na mobilização de parceiros e na aproximação entre ciência, território e sociedade”.

Ela destaca que a comunicação não substitui os demais pilares da conservação, mas amplia sua capacidade de produzir impacto. “A conservação precisa de pesquisa, gestão, financiamento e políticas públicas, mas também precisa de boas narrativas. Apoiar uma formação como essa significa contribuir para que mais profissionais e instituições consigam comunicar melhor a importância da biodiversidade e o impacto do trabalho que realizam”.

Imagens: Programa Grandes Mamíferos da Serra do Mar