
Gestores e comunidades unem forças para fortalecer áreas protegidas do litoral do Paraná
Mater Natura promove articulação, capacitação e planejamento participativo junto a Unidades de Conservação no território da APA de Guaratuba
Sítio Ramsar localizado no território da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba, no litoral do Paraná – Foto: Gabriel Marchi
O território da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba, no litoral do Paraná, está entre os mais importantes para a conservação da biodiversidade no sul do país. Com cerca de 200 mil hectares, abrange seis municípios – Guaratuba, Matinhos, Morretes, Paranaguá, São José dos Pinhais e Tijucas do Sul – e abriga ecossistemas como manguezais, florestas, estuários e ilhas, além de cerca de 40 mil hectares reconhecidos internacionalmente como Sítio Ramsar, título dado a áreas úmidas de relevância global.
Porém, conservar esse todo esse território depende de um importante fator: fazer comunidades, gestores e instituições participarem juntos das decisões sobre as áreas protegidas.
Com esse foco, o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais realiza o projeto Diálogo UC – Fortalecimento da Gestão Participativa das Unidades de Conservação do Território da APA de Guaratuba, que está coordenando a implementação de planos de intervenção em seis Unidades de Conservação (UCs) e em uma comunidade selecionada.
“Desde novembro de 2024, estamos realizando um processo formativo com foco na capacitação de atores estratégicos, como representantes de comunidades locais e tradicionais, técnicos de instituições e conselheiros das UCs”, explica a coordenadora do projeto, Renata Padilha.
Participantes do curso do projeto Diálogo UC, realizado em junho e julho de 2025 – Foto: Gabriel Marchi
O curso e os planos de intervenção foram definidos a partir de um diagnóstico construído em oficinas e encontros com a participação destes atores e das equipes gestoras das UCs. O processo já envolveu mais de 60 pessoas de diferentes setores e agora está na etapa de implementação de ações para os desafios de cada área.
O projeto é financiado pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP) com recursos do Termo de Acordo Judicial celebrado entre o Ministério Público Federal, Ministério Público do Estado do Paraná e a Petrobras, sob interveniência do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A iniciativa conta com apoio da Rede PPPEA Guaratuba.
Desafios comuns: pouca participação, comunicação difícil e baixa visibilidade
Entre os principais desafios identificados estão a necessidade de aumentar a integração entre gestão pública e comunidades, fortalecer conselhos gestores e espaços de participação e aumentar a visibilidade das UCs. Também são prioridades mais apoio técnico, melhor comunicação com moradores do entorno e fortalecimento da mobilização comunitária.
“O projeto trouxe um espaço qualificado de diálogo, promovendo troca de conhecimentos, aproximação entre comunidade e gestão, além de fortalecer a construção coletiva de soluções”, avalia a gestora da APA de Guaratuba, Célia Cristina Lima Rocha.
Em alguns casos, os desafios vêm de longa data. No Parque Estadual do Boguaçu, por exemplo, uma das ações é a estruturação do conselho consultivo da UC – que foi criada em 1998 e desde então seguia sem conselho. “São quase 30 anos de espera e agora, com muita alegria, estamos na fase final com o resultado concreto”, comemora Israel Montesuma, morador do entorno do parque envolvido no processo.
Saiba o que está sendo realizado em cada área:
APA de Guaratuba
O foco é a reativação do Conselho Consultivo (antes Deliberativo) da UC, com o mapeamento de membros e oficinas de formação para conselheiros. Também foi concluída a minuta da portaria que oficializa a reestruturação do conselho, já encaminhada ao Instituto Água e Terra (IAT) para aprovação.
“Os membros já estavam mobilizados. Esse conselho já existia. Então o que a gente precisava era fazer essa reativação”, explica Lara Gama Vidal, moradora local envolvida no processo e articuladora do grupo de trabalho da APA.
Oficina realizada pelo projeto Diálogo UC junto à APA de Guaratuba em novembro de 2025 para reativação do conselho – Foto: Mater Natura
Parque Nacional de Saint-Hilaire/Lange
As ações buscam fortalecer o diálogo com comunidades do entorno, como Cabaraquara, Prainha e Vila Nova, com oficinas participativas e a produção de uma cartilha em linguagem mais acessível sobre o plano de manejo da unidade.
“A intenção é fazer uma devolutiva do plano de manejo para que a comunidade consiga acessar informações que às vezes são técnicas demais, e ficam muito distantes desse público”, detalha Juliana Pina, bióloga e educadora ambiental que faz parte da equipe do projeto.

Reunião de alinhamento entre a equipe do Diálogo UC e os gestores do PARNA Saint-HIlaire/Lange – Foto: Mater Natura.
Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais
A prioridade foi ampliar a troca de saberes entre pescadores, gestores e pesquisadores, dando origem a uma cartilha que aborda a relação da pesca com o parque. “Fizemos diversas rodas de conversa com pescadores tradicionais de Matinhos e de Pontal do Paraná para entender como é a relação deles com o parque e os desafios que enfrentam. A cartilha vai trazer a visão deles”, conta Juliana Pina.
Outro foco é aumentar a visibilidade, com a produção e instalação de placas que vão indicar a localização do parque. Uma das placas será instalada no Pico de Matinhos, além de banners de divulgação que também serão colocados em pontos estratégicos. “Muita gente, mesmo o público do litoral e os turistas, não sabem que existe o parque”, destaca Juliana.

Roda de conversa realizada com pescadores, no entorno do PNM Ilha dos Currais – Foto: Mater Natura.
Parque Estadual do Boguaçu
O foco está na criação do conselho consultivo do parque e na reconstrução dos espaços de participação, com a aproximação entre o parque e as comunidades do entorno. “Essa era a principal coisa a se fazer, então, desde o início, a nossa proposta sempre foi o diálogo e a construção em conjunto”, explica Lara Vidal, que acompanha as ações no território.
A minuta para a criação do primeiro conselho do parque já foi escrita e entregue ao IAT para análise. Os componentes do conselho foram também selecionados. Segundo Lara, o processo incluiu a escuta ativa nas comunidades. “Fomos até as comunidades e ouvimos as histórias deles, as preocupações e as expectativas em relação ao parque”.
Para Leandro Duarte dos Santos, engenheiro florestal e chefe da unidade, um dos principais resultados foi a construção de diálogos com as comunidades do entorno da UC. “Foi uma experiência bem interessante, que, de certa forma, apresentou o parque para a comunidade também e estreitou esse laço entre nós gestores e eles”, conclui.

Ação de mapeamento e escuta com moradores das comunidades do entorno do PE do Boguaçu – Foto: Mater Natura.
Parque Nacional Guaricana
Foi realizado o mapeamento das comunidades do entorno e das suas lideranças, e, após isso, oficinas de integração com os moradores, com o objetivo de criar um plano de ação para o Conselho Gestor da UC. As oficinas foram realizadas com as comunidades de Castelhano, Rio Sagrado, Rasgado, Rasgadinho e Ribeirão Grande.
“A proposta dessas reuniões é ir até essas comunidades e escutá-los, ver quais são as propostas, quais os anseios da comunidade e trazer isso numa roda de conversa com esclarecimentos”, detalha Carolina Müeller, educadora ambiental que faz parte da equipe do projeto.
“A ideia é criar um GT dentro do conselho do parque e trazer todo esse resultado para propor a parte da elaboração do plano de ação, que vai ficar a cargo do conselho”, completa Carolina.

Oficina realizada na comunidade de Castelhanos, entorno do Parque Nacional Guaricana, em novembro de 2025 – Foto: Mater Natura
Parque Natural Municipal Lagoa do Parado
As atividades se concentram em educomunicação com crianças, através de desenhos infantis que irão compor uma cartilha de sensibilização sobre o ambiente do parque para as comunidades do entorno. Também está prevista a compra de um projetor para atividades de divulgação do material e a criação de um conselho gestor para o parque.

Imagem aérea da região do PNM Lagoa do Parado – Foto: Edgar Fernandez
Comunidade Mundo Novo do Saquarema
O objetivo é ampliar a articulação entre os moradores e melhorias no sistema hídrico do território. Inicialmente, foi prevista a compra e instalação de um hidrômetro, que posteriormente foi cedido à comunidade. “Eles conseguiram o hidrômetro sem custo com a própria Sanepar, só pelo fato de se mobilizarem, de se articularem”, conta Renata Padilha, coordenadora do projeto.
Foram realizadas oficinas e ações educativas ambientais junto à comunidade e crianças, voltadas a temas como a economia de água, compostagem e tratamento de esgoto.
Uma das prioridades levantadas pelos moradores foi a recuperação do rio da comunidade. “O ideal é revitalizar o rio para que nós passemos a ter uma água limpa, corrente, com peixe, que as crianças possam brincar”, resume Márcia Xavier, médica veterinária e moradora local.

Oficina realizada na comunidade Mundo Novo Saquarema, projeto piloto no Diálogo UC – Foto: Mater Natura
Sobre o Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais
O Mater Natura – Instituto de Estudos Ambientais é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua há mais de 40 anos na conservação da biodiversidade e na defesa do meio ambiente no Brasil. Desenvolve projetos voltados à proteção de ecossistemas, estudo e conservação de espécies raras e ameaçadas, educação ambiental, adaptação à mudança do clima e fortalecimento de políticas públicas ambientais, com base em evidências científicas e atuação em rede. Para mais informações acesse: maternatura.org.br
Sobre o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná
Criado em 2021, o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná promove a conservação, a pesquisa e o uso responsável dos recursos naturais, fortalecendo Unidades de Conservação e impulsionando o desenvolvimento sustentável do litoral paranaense. Financiado pelo Termo de Acordo Judicial (TAJ) firmado após o vazamento de óleo ocorrido em 2001, o Programa investirá mais de R$110 milhões em iniciativas estratégicas ao longo de dez anos. A governança do programa é compartilhada entre organizações da sociedade civil, instituições de ensino superior e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), supervisionados pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Paraná. A gestão financeira e operacional do Programa é realizada pelo Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Para saber mais, acesse www.biodiversidadelitorapr.com.br