
Com apoio do BLP, expedição apresenta potencial gastronômico e ambiental do fruto da juçara no litoral do Paraná
Grupo de jornalistas, chefs de cozinha e influenciadores digitais conheceram iniciativas locais e cozinha laboratório financiada pelo Programa na Reserva Natural das Águas
Imagens: Gabriel Marchi
Uma iniciativa voltada à valorização da sociobiodiversidade e da gastronomia do litoral do Paraná reuniu jornalistas da grande imprensa, chefs de cozinha, influenciadores e outros convidados. No último dia 9 de abril, a SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental promoveu a Expedição Juçara no território da Grande Reserva da Mata Atlântica (GRMA), em parceria com o Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), para apresentar o potencial do fruto da palmeira juçara (Euterpe edulis). A iniciativa também destacou o papel da espécie na conservação da Mata Atlântica, bioma do qual resta pouco mais de 7% de sua cobertura original preservada.
O objetivo foi demonstrar como o fruto, altamente nutritivo e rico em compostos antioxidantes e anti-inflamatórios, pode ser incorporado à gastronomia. Com até quatro vezes mais antocianinas (pigmentos naturais responsáveis pelas cores vermelha, roxa e azul em frutas e plantas) do que o açaí, por exemplo, a juçara se destaca pela versatilidade, sendo utilizada em receitas que vão de bolos e pães a preparos com peixe e até em balas de banana, geleias e sorvetes.
Roteiro iniciou pela Estrada da Graciosa
A programação da Expedição começou em Curitiba (PR), com deslocamento pela histórica Estrada da Graciosa até o litoral. O primeiro destino foi o Ekôa Park, localizado em Morretes (PR), onde os participantes acompanharam de perto o processo de colheita do fruto, conduzido pelo Instituto Juçara, parceiro do projeto, que atua na região desde 2012.
“A juçara tem uma particularidade: é parecida com o açaí, mas é característica da Mata Atlântica. Quando você corta o palmito juçara, ele não tem a capacidade de rebrotar, como o açaí, cortou, ela acaba. Ao considerar a possibilidade de trabalhar somente com o fruto, além de manter a planta em pé, é possível explorá-la por anos, gerando renda de forma regular, sem a necessidade de se submeter a situações de risco para obter baixos ganhos”, explicou Phablo Bittencourt, do Instituto Juçara.
Phablo acrescentou que na primeira semana de junho acontecerá a Festa da Juçara, em Matinhos (PR), com produtos e atrações culturais voltados à valorização da cultura local. A iniciativa destaca importância da conservação da espécie, já que a juçara é uma palmeira ameaçada de extinção, com corte proibido, e protegida por lei. Além disso, o fruto serve de alimentação para a fauna. Estima-se que mais de 70 espécies de animais consumam seus frutos.

Durante a Expedição, os participantes acompanharam o processo de colheita dos cachos, realizado de forma artesanal — seja por meio da escalada na palmeira ou com o uso de um utensílio em formato de haste. Cada quilo de fruto de juçara pode reunir entre 700 e 900 frutos. A colheita ocorre uma vez por ano, entre março e maio, e cada palmeira pode produzir, em média, até 3,5 quilos de frutos, podendo ultrapassar 10 quilos por planta em alguns casos.
Após a retirada, feita de maneira cuidadosa para preservar a integridade do fruto, o material é encaminhado rapidamente para processamento, etapa que garante a qualidade da polpa, que apresenta curta durabilidade após a colheita. A polpa é, então, destinada à indústria, onde é utilizada na produção de diversos alimentos. Já os resíduos que não são aproveitados nesse processo ganham novo uso na produção de artesanato e suas sementes são utilizadas para a produção de novas mudas, auxiliando no aumento da população da espécie.
Visita a Reservas Naturais
Ainda durante a Expedição, na sequência, o grupo seguiu para a Reserva Natural das Águas, que está localizada dentro da GRMA, uma área com mais de 3 mil hectares de antigas pastagens de búfalos, que hoje abriga atividades de conservação ambiental. No local, foi possível acompanhar as etapas de despenca, seleção, higienização e extração da polpa da juçara, processos realizados em uma cozinha laboratório que foi estrutura e financiada pelo Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), por meio do projeto Paisagens Multifuncionais da Grande Reserva Mata Atlântica: Fortalecimento da Produção Agroflorestal e Agroecológica na APA de Guaraqueçaba – SPVS.
“Essa cozinha está se moldando para ser um espaço coletivo e comunitário para a da juçara e ou, que oferece um alimento riquíssimo”, comenta a comunitária Rayen Mourão, agrofloresteira e moradora de Morretes (PR), que integra o Coletivo de Convivências Agroecológicas do Litoral Paranaense (CCA) e atua no projeto de agroflorestas BioSAF, em parceria com a SPVS.
Além da experiência gastronômica, com a degustação da polpa fresca do fruto, os participantes tiveram contato com ações de educação ambiental, incluindo visita a um meliponário com abelhas nativas sem ferrão e uma pequena trilha dentro da Reserva. “A coleta do mel das abelhas é feita de forma sustentável, dentro da floresta. Temos algumas iscas às quais as abelhas são atraídas, onde formam colmeias, que depois são transferidas para as caixas (casinhas)”, explicou Rodrigo Condé, coordenador de projetos da SPVS.
Impacto econômico dos sistemas agroflorestais
Em seguida, o grupo seguiu para a Reserva Natural Guaricica, onde ocorreu o almoço e uma rodada de apresentações. Antonio Ozaki, o Tiba, da Cooperativa dos Pequenos Produtores Rurais de Antonina (ASPRAN), destacou o valor econômico da juçara quando plantada. Segundo ele, um quilo da polpa pode chegar a R$ 40, enquanto o corte ilegal da palmeira rende cerca de R$ 10 ao extrativista, além de exigir mais de oito anos para a regeneração da planta.
“Começamos a trabalhar com a despolpa da juçara e a ASPRAN foi a pioneira no estado do Paraná. Para isso, nós buscamos parceiros de apoio, como universidades e a SPVS, que de alguma forma poderiam nos ajudar. Este trabalho (com o fruto da juçara) representa uma fonte de renda, não compensa cortar a palmeira, compensa preservar e coletar o fruto para vender depois”, disse.

O professor Manoel Flores Lesama, do curso de agroecologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ressaltou a importância de sistemas agroflorestais como alternativa para o uso sustentável do território, integrando produção agrícola e preservação ambiental. “No sistema agroflorestal, tentamos desenvolver a produção de alimentos agrícolas e frutas. Como estamos em um dos espaços mais ricos do mundo em biodiversidade, nosso conhecimento ainda é muito pequeno. Estamos usando a juçara, que é uma planta extraordinária, e estamos querendo descobrir mais, estamos chamando a atenção para que esse processo se desenvolva de forma local e legítima para as populações locais”, explicou.
Lançamento da bala de banana com juçara
A programação da Expedição Juçara foi encerrada no Armazém Macedo, em Antonina (PR), onde os convidados participaram de uma exposição de negócios locais baseados na juçara. O evento marcou o lançamento de novos produtos, como a bala de banana com juçara, da Bananina, além da exposição de outros itens como mel de abelhas nativas, sorvetes, geleias e cosméticos.
“Foi um desafio aceitar o convite da SPVS para desenvolver a bala de banana com juçara, um produto original da Mata Atlântica. Buscamos valorizar a juçara, que é típica da região e traz sabor e tonalidade roxa, o que agrega valor e contribui para incluir a agricultura familiar”, afirma Maristela Mendes, fundadora da Bananina, produtora de balas tradicionais e com diferentes sabores de banana.

O barista Léo Oliva, um dos participantes da Expedição, estuda o uso da juçara para o desenvolvimento comercial em drinks, com potencial para integrar cardápios. Ele criou uma bebida com xarope de juçara inspirada na soda italiana. “Por ter muitas antocianinas e taninos, a juçara me remete ao vinho. Tentei trazer essa referência, com uma acidez diferente, semelhante à de um espumante, dentro de uma soda de juçara, de forma simples de aplicar”, explicou. No evento de encerramento da Expedição, a bebida foi distribuída para degustação, acompanhada de diversos quitutes elaborados pela Chef Karla Manfredini, proprietária do Restaurante Casa do Mangue de Antonina.